Uma das cerimônias mais importantes no mundo da aviação é a despedida de um comandante. Provavelmente seja, junto com o seu primeiro voo solo, a maior emoção de sua vida de aviador.
Alguns meses atrás ocorreu a despedida do Cmte. Castro, da TAM, dos voos internacionais. Ele segue como Safety na companhia, e ainda pilota os Airbus A319/A320/A321 no nacional.
O vídeo abaixo demonstra bem o ritual de despedida de um Cmte. Seguramente trata-se de um dos mais emocionantes vídeos de aviação que eu já assisti.
Alguns dias atrás, meu amigo e colega Marlon, escreveu este post sobre alguns de seus sonhos passados. Confesso que lê-los foi particularmente estimulante, sobretudo por me identificar com alguns deles. Isto me deu subsídios e motivação para voltar a postar depois de tanto tempo.
Eu nunca sonhei em ser motorista de caminhão. No entanto lembro-me, com bastante clareza, que a primeira profissão que eu sonhei desempenhar foi a de motorista de ônibus. Transportar vidas, naquele momento, parecia ser tudo o que eu precisaria para ser realizado na vida.
Alguns anos depois (que na cabeça de criança representam séculos) a paixão pelos ônibus foi esmaecendo. Talvez pela distância que a maioridade legal impunha. Outros sonhos foram surgindo em substituição a utópica vontade de dirigir ônibus. Entraram em cena as bicicletas. Essas sim, com possibilidade de realização imediata. Ou quase.
Meses e meses de economias para incrementar a minha Monark BMX aro 20″. Sim, eu ainda era uma criança, e aro 20″ era tudo o que estava ao alcance das minhas não muito longas pernas daquele momento. Pinha de 6 marchas, passador shimano, velocímetro analógico com indicação de até 80 km/h e odômetro, freios cantilever e protetor de raios eram alguns dos tantos acessórios do meu mais que incrementado meio de transporte. Claro, eu não teria realizado esse meu primeiro sonho sem a ajuda dos meus pais.
Os anos passaram e as pernas foram crescendo. Junto com isto vieram as bicicletas aro 26″, de alumínio, 18 e 21 marchas, e agora elas tem até computador de bordo. Em paralelo, foi nascendo um interesse por carros. A exemplo do Marlon eu também tinha assinatura de revistas automotivas. Aos poucos, pilhas e pilhas de 4 Rodas e Autoesporte se formavam. Acompanhei, através delas, a evolução tecnológica dos automóveis, após a abertura de mercado realizada pelo Collor. A injeção eletrônica e o motor 2.0 do Gol GTI ainda estão na minha mente. A super eletrônica embarcada do Kadett GSi, com inúmeros dispositivos eletrônicos. Vi nascer o motor 1000 cc do Gol, e lembro até hoje o que perguntei ao meu primo mais velho na ocasião: “Como isso anda?”.
Ônibus e carros são apenas alguns dos sonhos que já tive, dentre outros tantos que sequer elenquei, como a música, o futebol, os estudos… Sim, os estudos. Afinal, o que serei quando crescer?
Isso começou a se definir em 1995, quando meu pai me deu meu primeiro computador. Tratava-se de um 286, com 512KB de memória, disco de 40MB e monitor CGA, com cinco tonalidades de verde. Eu não sei, até hoje, se gostava mais dele ou de um jogo em particular que estava instalado nele: o Flight Simulator 4.
Os anos continuaram passando e com eles novos computadores foram surgindo. Novos pentiums e AMD’s surgiam no mesmo ritmo que novos Flight Simulators. Recordo perfeitamente que usei, além do FS4, o FS5, o FS98, o FS2000, o FS2002 e, finalmente, o FSX. A primeira decolagem, o primeiro pouso, a primeira navegação… começava a criar asas um sonho.
Concluí o primeiro grau, o segundo. Este último profissionalizante, técnico em informática. Os anos que passei me desenvolvendo no segundo grau fizeram crescer em mim uma paixão pela informática. Não era a informática conhecida pela maioria, compreendida por Windows e pacote Office. Tratava-se da informática mais ampla, dos modems, roteadores, HUBs e switches e, finalmente, o Linux. Descobri que o Windows não era o computador, mas sim o sistema operacional. O computador era, na verdade, bem mais do quê aquilo que o Windows teimava em limitar. Como usuário, passei a utilizar o Conectiva Linux 4.
O segundo grau terminou, mas deixou comigo um legado: o meu primeiro emprego. Eu estava adorando o mundo de oportunidades que aquilo estava abrindo à minha frente. Por outro lado eu me questionava a todo instante: quero estar no solo ou no ar?
O sonho de transportar pessoas voltava à tona. Não mais em forma de ônibus, mas agora em forma de aeronave. A cada voo como passageiro eu observava tudo o que estava havendo, e adorava perceber o quanto daquilo tudo eu estava entendendo. Estava chegando a hora de decidir qual caminho da bifurcação iniciada em 1995 eu deveria percorrer. Entrei em contato com o Aeroclube do Rio Grande do Sul a fim de obter informações sobre como se tornar piloto. A boa vontade do aeroclube, em enviar por carta todas as informações necessárias, na verdade afastaram temporariamente o sonho de voar. Minha pesquisa foi descoberta pelos meus pais, que com os argumentos de que é perigoso, é caro e sem garantia de retorno e futuro dizimaram com qualquer possibilidade de pilotar uma aeronave naquele momento.
Que venha a faculdade de Informática. O curso escolhido foi Sistemas de Informação, na PUCRS. Na primeira aula de laboratório os Windows não estavam funcionando. Improvisou-se uma aula normal, com quadro e caderno. Ao meu lado estava sentado um cara, digitando 200 palavras por minuto no console do Linux. Depois de alguns segundos o diagnóstico: “- O DNS está fora”, disse ele. Eu não sei o que esse cara faz, mas eu quero fazer igual, pensei eu.
“- Prazer, Alberto”. “- Prazer, Marlon“. Algum tempo de papo depois o Marlon me sugeriu utilizar o Debian Linux. Ele gentilmente me cedeu uma mídia e um cartão de visitas com o logotipo do Debian-RS, um grupo de usuários local, caso eu tivesse dúvidas de como instalar aquele CD. Eu tive dúvidas e precisei recorrer. Talvez isso tenha demarcado o caminho que muitas coisas tomaram dali pra frente.
No decorrer da faculdade alternei entre a aviação e a informática. Lia e buscava informação sobre ambas as áreas. A cada nova viagem de avião uma nova sonhada.
Acabei estudando apenas um semestre com o Marlon, visto que na segunda metade daquele ano ele iria fazer uma viagem longa ao exterior, o que inviabilizaria a faculdade naquele momento. No entanto, desde então, sempre mantivemos algum contato, seja via ICQ ou por e-mail.
Lembro que em Janeiro de 2004 nós conversamos e ele estava em Manaus, atendendo a um cliente. Na ocasião, estava ocorrendo um problema na migração de um servidor AD para Linux com Samba e LDAP. Recordo que dei uma googleada sobre o problema, embora não tenha encontrado nada muito elucidador.
Mal sabia eu que o mundo girava e que, aquele problema, passaria a ser responsabilidade minha algum tempo depois. A Propus passava por mudanças e, em 01 de Julho de 2004, eu passei a fazer parte da Propus, a convite do Marlon. Passei algum tempo dividido entre o meu emprego anterior (e primeiro) e a Propus. Em três meses passei a me dedicar profissionalmente apenas à Propus. Ela cresceu, o tempo passou, e hoje sinto que ela faz parte de mim.
A convivência do dia-a-dia, algumas milhas voadas juntas, me fizeram perceber que o Marlon e eu compartilhavamos um sonho em comum: voar.
Os simuladores, a essa altura já bem mais avançados, começaram a preencher o tempo vago das férias da faculdade. Era bastante comum encontrar o PT-MFD e o GOL1936 cruzando os céus virtuais do Brasil. E olha o TCAS ali.
Logo veio a formatura da faculdade, o diploma de curso superior e, com ele, a suposta tranquilidade de um futuro bom. Claro, não sem muito esforço, dedicação e apoio.
O tempo ocioso, após a faculdade, e a sensação de encaminhamento profissional abriu novamente as portas para o sonho de voar. Dessa vez, nenhum argumento foi capaz de segurar as asas de decolarem.
O Marlon, em seu post Asas de um sonho, explica perfeitamente bem todos os passos necessários para se tornar um piloto. É bem mais complexo do que eu imaginava, com um nível de exigência muito alto. Com um pouco de esforço e muita vontade conseguimos vencer todas as etapas e entrar em voo.
Atualmente estou com 6 horas e meia de voo. Parece ser quase nada, embora seja muito mais do que eu poderia imaginar lá em 1995, tentando pousar um Cessna Skylane 182 no FS4. Dizem que é bom voar, embora eu ainda não tenha tido o prazer de curtir meus voos. Quando se está começando, 100% de sua capacidade intelectual, de sua atenção e da sua coordenação está sendo alocada para o voo em si. São tantas coisas ocorrendo concomitantemente que o máximo que se consegue é dar uma espiadinha na paisagem. Mas isso é assunto para muitos outros posts que virão por aí.
Escrever esses poucos parágrafos reavivaram muitas lembranças. O tempo, cruel e insensível, transforma nossos mais utópicos sonhos em mera rotina. É preciso “documentar” a vida para se dar o verdadeiro valor a cada uma de nossas conquistas.
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